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No último sábado (27/01), Cleonice Sebastiana José aproveitou a folga no trabalho para resolver a conversão de seu televisor analógico para o sistema digital. A técnica em enfermagem chegou tímida à tenda montada no centro de Ribeirão Preto (SP) pela Seja Digital – organização sem fins lucrativos responsável pelo cadastramento e distribuição de kits compostos por conversores e antenas. A entidade atende famílias com renda de até três salários mínimos e aquelas inscritas em programas sociais do governo federal. “Fiz o cadastro e agora tenho de esperar. Acho que ficarei sem TV por uns dias”, disse.

Como muitos, Cleonice deixou para a última hora. O seu orçamento familiar não permite a compra do conversor e antena no comércio – que oferece o kit por valores entre 150 e 180 reais. Ela possui dois televisores de tubo em sua residência, em perfeito funcionamento. “Eu achei que iam adiar de novo”, comenta.

Em novembro de 2017, a migração para o sinal digital na região foi postergada. Era preciso chegar ao mínimo de 93% de domicílios aptos a receber o sinal digital. Como a meta não foi atingida, houve adiamento e os munícipes relaxaram. Agora, muitos contam com novo prazo.

A migração, no entanto, será definitiva. Por decisão do Grupo de Implantação da TV Digital, os canais de Ribeirão Preto e outras 19 cidades da região estão autorizados a desligar o sinal analógico, a partir de hoje (31de janeiro).  O processo se estenderá até o dia 21 de fevereiro, dando mais alguns dias para os atrasados. A partir dessa data, a programação da TV aberta só estará disponível pelo sinal digital. “As pessoas acham que é chegar aqui e pegar o kit. Mas temos um processo de cadastro e agendamento”, explica Tatiane Fileto, coordenadora do Seja Digital.

Cleonice Sebastiana José (à direita) é atendida pela promotora Aline Maziero, na tenda da Seja Digital, em Ribeirão Preto (SP). Ela espera que a TV Digital realmente traga benefícios. Foto: Ediane Tiago.

Cleonice espera que a migração valha a pena e traga  sinal de melhor qualidade. “Ouvi que a programação digital não está funcionando direito. Até agora não entendi muito bem por que estão mexendo na TV”, confessa.

A dúvida é pertinente. Desde o início da década de 1950, a infraestrutura analógica garante a novela de todos os dias. A tecnologia é consolidada e dominada pelos brasileiros, acostumados a driblar chuviscos com uma mexida na antena. Ainda é difícil, para boa parcela da população, avaliar ganhos como imagem em alta definição, melhor qualidade de áudio e interatividade. Principalmente para quem tem TV de tubo. “Será que faz diferença mesmo?”, questiona a técnica em enfermagem.

Em pouco tempo, será possível medir os impactos na programação. Mas há um ganho maior, que não é computado pela população: o avanço da internet móvel. Toda a mobilização para migrar a TV para o sistema digital tem ligação com a liberação da infraestrutura para a ampliação da banda larga sem fio.

A TV analógica ocupa a nobre faixa de frequência de 700 MHz – ideal para a oferta de conexões rápidas. Assim como a internet móvel, o sinal de TV é transformado em ondas eletromagnéticas que se propagam pelo ar. Nós não enxergamos essas ondas. Elas são enviadas por um transmissor (em geral antenas) e captadas por receptores (aparelhos de TV ou celulares). As faixas de frequência funcionam como estradas que identificam e transportam os sinais. A faixa de 700 MHz, ocupada hoje pela TV analógica, é uma via super-rápida, que está sendo mal aproveitada por uma tecnologia de transmissão antiga.

Já TV digital opera muito bem – e com mais recursos – em outra estrada, ou faixa de frequência. Então é possível garantir acesso de melhor qualidade à TV aberta sem travar o avanço da banda larga móvel. O desligamento do sinal da TV analógica permitirá que aparelhos ligados à rede 4G – como celulares ou tablets – trafeguem na internet com velocidades de até 45 Megabits por segundo (Mbps), apontam os estudos da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

Não é segredo para ninguém que a democratização da internet no Brasil tem sido feita por meio da mobilidade. Para acessar a rede mundial, basta um aparelho de telefone inteligente, ou smartphone.  Pela rede, é possível obter produtos e serviços, educação a distância, comunicação irrestrita e, até mesmo, a programação de TV. “A internet é  transformadora”, lembra Tatiane. Ela fala por experiência própria. “Estudo a distância. Sem este recurso, ficaria difícil cursar a universidade. Torço por uma 4G de melhor qualidade.”

Em coletiva de imprensa, realizada em novembro do ano passado, a secretária de radiodifusão do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), Vanda Nogueira, ressaltou que o processo de implantação da TV digital envolveu uma parte expressiva da população em 2017. Segundo ela, o sinal analógico já foi encerrado em mais de 300 municípios, abrangendo mais de 70 milhões de pessoas. “Toda essa população será beneficiada com uma televisão de altíssima qualidade, como também com a tecnologia 4G de telefonia móvel.”

 

Crédito da foto da abertura: Frank Okay (Unsplash).


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