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O exemplo da furadeira, disseminado pela especialista em colaboração Rachel Botsman, é o meu preferido na hora de explicar a relação entre hábito de consumo e economia compartilhada. Pelos cálculos de Rachel, cada ferramenta será utilizada por apenas 12 ou 13 minutos durante toda a vida útil. No restante do tempo – a menos que você trabalhe como ‘faz tudo’ – o equipamento passará imóvel em um armário. “É ridículo, não é? A gente precisa do buraco e não da furadeira”, disse a especialista em uma de suas palestras para o público do Ted Talks.

Eu me lembro bem do dia em que comprei uma furadeira para pendurar os quadros da sala. Calculo agora o quanto cada furo me custou. A ferramenta está lá, imóvel e empoeirada, na prateleira da área de serviço. Se tivesse emprestado ou alugado a furadeira de um vizinho, a conta seria bem menor. Poderia, por uma parcela do preço, ter contratado os serviços de um ‘marido de aluguel’. A ideia não me ocorreu, fui criada em um sistema no qual a compra, ou o incômodo de um empréstimo, eram as únicas opções. Também acreditei que seria útil ter uma furadeira em casa.

 

Não estive enganada apenas com a compra da ferramenta. Em casa, tenho vestidos, sapatos, bolsas, eletrodomésticos e tanta outras coisas, que usei uma única vez. A compra pareceu uma boa ideia. Agora avalio a pequena fortuna que imobilizei no artigos que entopem meus armários.

A possibilidade de alugar ou trocar itens é algo que foi facilitado pela internet. A conectividade permitiu o surgimento de inúmeros aplicativos que conectam o dono do bem aos consumidores. Essa é a principal base da tão falada economia compartilhada – que surgiu à reboque da digitalização. Paga-se pelo uso (ou acesso ao bem) e não pela posse dele. Quem tem algo que usa pouco, pode gerar renda extra. As empresas mais famosas deste modelo são o Uber e a Airbnb.

Vale lembrar que a ideia inicial do Uber não era se tornar uma empresa de transportes de passageiros. Mas permitir que os donos de automóveis rentabilizassem o bem no tempo livre e, claro, facilitar o acesso a automóveis para quem precisa. Se você, por exemplo, trabalha meio período e tem um carro parado na garagem, que mal há em ganhar algum dinheiro dirigindo para outra pessoa em seu tempo livre? Mas dirigir para o Uber acabou se tornando a principal fonte de renda de muita gente, tornando a empresa alvo de polêmica no segmento de transporte de passageiros. Mas isso é assunto para outro post.

O Airbnb nos permite vivenciar a cultura local. Crédito da foto: Deanna Ritche (Unsplash).

Já o Airbnb – apesar da queixa de hotéis e pousadas – proporciona experiências interessantes, entre elas a chance de vivenciar um estilo de vida diferente do seu. No ano passado, aluguei uma casa, via Airbnb, em Las Vegas (EUA), para uma viagem em família. Com duas crianças, o fato de ter uma cozinha aberta e disponível o tempo todo faz diferença. De quebra, tivemos acesso a um imóvel confortável em um subúrbio norte-americano. Destino bem longe do circuito dos hotéis. Vivenciar as cenas dos filmes que assistimos, como a do vizinho cortando a grama no domingo pela manhã, e fazer compras no supermercado do bairro, são experiências que eu não teria em um hotel.

“A digitalização tem facilitado o compartilhamento, estimulando mudanças no hábito de consumo”, explica Marcos Fernandes, pesquisador do Centro de Estudos de Políticas das Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo. Para ele, a proliferação de aplicativos cria oportunidades para negociações diretas. “O aplicativo conecta as pontas, facilita as operações e traz confiabilidade”, diz. Ainda é uma operação entre estranhos. Mas o aplicativo “valida” os dois lados da negociação. Sei que se não cumprir minha parte, ficarei ‘marcada’ no Airbnb ou no Uber. O mesmo vale para os donos dos bens.

A mudança no comportamento de consumo é real e benéfica para a sociedade, lembra Fernandes.  “Sinaliza que os consumidores estão mais conscientes e menos dispostos a acumular bens”. Por isso, é sustentável. Neste sistema, combate-se o desperdício de recursos naturais. “Não há condição para mantermos um sistema embasado na acumulação. O compartilhamento vai mudar a economia e teremos de aprender a lidar com isso”, diz.

Nem todo mundo precisa ter furadeira em casa. Vestido ou bolsa de grife podem ser “alugados”. É possível experimentar a sensação de usar um relógio de luxo, sem comprometer o orçamento familiar. Carro parado na garagem é  desperdício de dinheiro.

Além de ser benéfica para o meio ambiente, o consumo compartilhado também melhora a qualidade de vida dos consumidores. Com acesso aos bens por uma parcela do valor de compra, há maior experimentação, o que amplia o bem-estar. “Com a mesma renda, é possível consumir mais. No final do mês, ainda sobra dinheiro”, completa Fernandes.

No Brasil, a economia compartilhada tem feito adeptos. De acordo com pesquisa realizada pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), 79% dos brasileiros concordam que o consumo colaborativo torna a vida mais fácil e funcional; 68% dos entrevistados consideram participar de iniciativas de compartilhamento nos próximos dois anos.

O estudo identificou que as modalidades de consumo colaborativo mais conhecidas e utilizadas pelos brasileiros são o aluguel de casas e apartamentos em contato direto com o proprietário (40%), caronas para o trabalho ou faculdade (39%) e aluguel de roupas (31%).

As caronas estão entre as modalidades de compartilhamento mais utilizadas pelos brasileiros. Crédito da foto: Why Kei (Unsplash).

Outras formas de economia experimentadas pelos brasileiros são aluguel de bicicletas espalhadas pela cidade (17%), aluguel de quartos para terceiros (16%), locação de carros particulares (15%) e compartilhamento de moradias em estilo comunitário, também conhecido como co-housing (15%).

Ainda de acordo com o levantamento, os brasileiros acreditam que vale mais a pena alugar livros (56%), equipamentos de ginástica (53%), artigos esportivos (53%), itens de jardinagem (51%) e instrumentos musicais (50%)

 

Crédito da foto de abertura: Berto Macario (Unsplash)


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One thought on “Digitalização estimula economia compartilhada”

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