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Especialista da Universidade de Indiana veio ao Brasil falar sobre a importância dos prontuários eletrônicos nos cuidados com os pacientes.

O potencial para melhorar o atendimento ao paciente levou a Dra. Thankam Paul Thyvalikakath para pesquisa na área de informática. Ela acredita na digitalização das informações como vetor para ampliar o acesso à saúde, prevenir doenças e trazer maior eficiência na gestão de clínicas e hospitais. “O paciente é o centro da estratégia. A ênfase está na informação, não na tecnologia”, explica a dentista, que atualmente dirige o núcleo de informática aplicada à odontologia na Escola de Odontologia da Universidade de Indiana (EUA).

No último ano, a especialista participou do painel “O Desafio para a Conectividade e Segurança de Dados na Saúde”, que foi ministrado durante o Cimes (Congresso de Inovação em Materiais e Equipamentos para Saúde), evento realizado pela Abimo (Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos, Odontológicos, Hospitalares e de Laboratório), em São Paulo.

Thankam: quando as informações já estão cadastradas no sistema, o médico tem mais tempo para conversar com o paciente. Crédito da foto: divulgação.

 

Thankam atua no desenvolvimento de sistemas capazes de utilizar a tecnologia da informação como base para aprimorar o atendimento clínico. Defende a integração dos dados da odontologia e do sistema de saúde, criando um prontuário eletrônico único, com visão 360 graus do paciente. Entre as vantagens, ela aponta mais tempo para tratar o paciente. “Com as informações já no sistema, o médico consegue conhecer melhor quem está em tratamento”, diz. Confira a entrevista que a especialista concedeu para o Ser Digital.

Ser DigitalComo a adoção de prontuários eletrônicos pode transformar o atendimento à saúde?

Thankam – A digitalização das informações de saúde chegou a um estágio crucial. Deixamos de ter ênfase na tecnologia, na questão da instalação dos sistemas. O mercado tem sido estimulado a fazer isso, de diferentes formas. O desafio atual é entender como utilizar os dados coletados para melhorar o cuidado com o paciente. Isso inclui estratégias para manter as pessoas saudáveis. Estamos saindo de um ambiente no qual tratamos doentes – de forma reativa – para outro com o objetivo de prevenir doenças. É necessário conhecer as características pessoais, sem esquecer de considerar aspectos de onde o indivíduo vive, como urbanização, diversidade e densidade populacional. Essas ações demandam qualidade na informação. A partir daí, seremos capazes de utilizar tecnologias disponíveis, como bigdata, para analisar dados e cuidar de forma mais eficiente das pessoas.

“O paciente é o centro da estratégia. A ênfase está na informação, não na tecnologia”

Ser Digital Como clínicas, hospitais e instituições entenderam a necessidade de digitalizar operações e informações sobre os pacientes nos Estados Unidos?     

Thankam – A adoção do prontuário eletrônico tem evoluído. Nos últimos dez anos houve uma aceleração na adoção de sistemas em clínicas e hospitais. A causa desse crescimento está no HITECH Act [programa de estímulo à adoção de prontuários eletrônicos e de tecnologias de suporte à rede de saúde criado pelo governo Obama, em 2009]. Por meio da iniciativa, clínicas e hospitais receberam benefícios fiscais para digitalizar suas operações e as informações do paciente. No início, é claro, o maior benefício percebido foi a eficiência na gestão. Os sistemas carregavam vantagens como rastreamento total dos pagamentos e controle do faturamento e dos custos. Quando iniciei meu trabalho, a questão principal era a adoção dos sistemas. Mas o mercado entendeu que a digitalização era a base para a eficiência e a problemática tecnológica está encaminhada.

Ser Digital Qual é o próximo passo?

Thankam – O desafio atual é, sem dúvida, a conectividade. Temos um volume grande de dados gerado pelos sistemas instalados em toda a cadeia da saúde. Mas precisamos conectar as informações. Estabelecer regras e estimular médicos, dentistas e instituições de saúde a compartilhar dados. Nossa missão atual é obter dados, juntá-los e analisa-los. Esse tem sido o principal trabalho aqui no centro em Indiana. É uma questão complexa, porque são diferentes sistemas e repositórios. Os dados odontológicos, por exemplo, estão separados dos prontuários médicos. Mas um dentista tem de saber se um paciente sofre de alguma doença para trata-lo corretamente. Sem dúvida, o desafio ao qual estamos dedicados é o de conectar os sistemas para obter um só banco de dados, capaz de receber as informações mais atualizadas sobre cada paciente.

 

“O compartilhamento de dados críticos, como os históricos de saúde, é uma questão delicada. O profissional de saúde tem de resguardar o paciente.”

Ser Digital Como motivar os profissionais de saúde a compartilhar seus dados, garantindo que a confidencialidade do paciente seja resguardada?

Thankam – O compartilhamento de dados críticos, como os históricos de saúde, é uma questão delicada. O profissional de saúde tem de resguardar o paciente. Nosso trabalho é mostrar como estamos construindo este banco de dados único, deixar claro os mecanismos de segurança e de proteção das informações. É um trabalho de educação, de entendimento deste medo. Mas é inevitável partirmos para essa conectividade. Eu acredito que, na medida em que os profissionais de saúde entenderem as vantagens de compartilhar os dados, eles estarão mais confortáveis. É um ganho de tempo no atendimento, de qualidade na relação com o paciente. Além disso, os dados podem ajudar a responder questões que esses profissionais estudam. Eles podem aprender com suas bases de dados, agregando informações capturadas por outros profissionais. Analisando e comparando. Dá para fazer isso sem prejudicar a confidencialidade do paciente.

Ser Digital Qual é o potencial para adoção de prontuários eletrônicos em países como o Brasil?

Thankam – Em países em desenvolvimento, como o Brasil, a adoção do prontuário eletrônico pode ser transformadora. Digitalizar é uma forma rápida de obter informações sobre a saúde da população. Além dos dados das clínicas e hospitais, é possível criar uma estrutura que permita a inserção de dados de diferentes dispositivos – como relógios e pulseiras que medem atividade física. Informação é a chave para tomar decisões mais acertadas sobre os investimentos na saúde. Isso significa alocar recursos financeiros com base em dados reais, não em percepções. Como há restrições financeiras para melhorar o atendimento, é preciso saber, de forma clara, como distribuir o dinheiro para beneficiar o maior número de pessoas possível. Acredito que a digitalização seja o caminho para fazer isso. Aqui nos Estados Unidos, nós estamos coletando dados sobre a saúde da população há muito tempo. É inegável que isso nos traz vantagens na hora de estudar doenças. Ao adotar o prontuário eletrônico, países em desenvolvimento poderão reduzir esta lacuna de informações. É um benefício para toda a sociedade.


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