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A professora Geciane Porto chegou agitada ao café onde marcamos uma conversa sobre os rumos da inovação no Brasil. Desviou os olhos do telefone celular, apoiou a bolsa na cadeira e disparou: “Tivemos um artigo aceito pela Nature.” Institivamente nos abraçamos. Após nove meses de espera, a aprovação da revista científica chegou à tela do dispositivo móvel de Geciane, momentos antes do nosso encontro. “Vai sair na próxima edição da Nature Biotechnology”, completou, citando uma das publicações globais mais influentes na área de biotecnologia.

Docente na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto (FEA-RP/USP) e vice-coordenadora da Agência USP de Inovação (Auspin), Geciane divide a autoria do artigo com os pesquisadores Cristiano Gonçalves Pereira (também da USP), Virgínia Picanço e Castro e Dimas Tadeu Covas, os dois últimos ligados ao Hemocentro de Ribeirão Preto. O trabalho descreve metodologia inédita para identificar tendências tecnológicas, a partir de informações obtidas em bancos internacionais de patentes.

O objetivo é destrinchar os caminhos das inovações, encontrando pontos de convergência entre as técnicas utilizadas, os acordos de cooperação e as relações entre as instituições envolvidas – esmiuçando as etapas do desenvolvimento. O método gera uma espécie de mapa para guiar pesquisadores nas rotas mais promissoras. “O fato mais significativo está em publicar um artigo da área de gestão da inovação. Isso mostra que temos competência para estimular a aplicação da ciência na Brasil”, comenta Geciane.

O pesquisador Cristiano Gonçalves Pereira, orientado pela Professora Geciane Porto, aplicou metodologia inédita para traçar rotas tecnológicas. (Foto de divulgação).

 

Pereira explica que a análise é similar às feitas para identificar bolhas de influência em redes sociais como Facebook e Twitter. A partir do cruzamento de informações capturadas nas patentes (citações de tecnologia, nomes de empresas, pesquisadores e instituições de ensino e pesquisa), é possível “desenhar” os nós das redes de cooperação, traçando as tendências.

Para esclarecer o conceito, o pesquisador cita a teoria dos seis graus, testada pelo psicólogo norte-americano Stanley Milgram na década de 1960. Milgram investigou o “problema do mundo pequeno” por meio de um experimento capaz de demonstrar que todos nós podemos ser conectados por uma corrente de conhecidos com aproximadamente seis elos de extensão. Nas redes de pesquisa, o comportamento se repete. As tendências tecnológicas seguem um fluxo de influência muito parecido ao do nosso comportamento social. “A relação entre os agentes de inovação é determinante na atividade de pesquisa e desenvolvimento”, confirma Pereira.

De acordo com Geciane, compreender as conexões das redes de pesquisas é fator estratégico, especialmente em setores como a biotecnologia, onde os riscos e os investimentos exigidos são altos. “No Brasil, a crise econômica tem drenado recursos da pesquisa. Nossa melhor chance é identificar as tendências mais promissoras para investir e integrar os blocos de cooperação”, analisa. Neste cenário, entender as interações define o sucesso ou o fracasso de um projeto.

A timidez brasileira em biotecnologia intrigou Pereira. Biólogo de formação, o pesquisador fez mestrado e doutorado na área de oncologia. No universo das moléculas e células, atuou como pesquisador no MD Anderson Cancer Center, mantido pela Universidade do Texas. Em 2014, de volta ao Brasil, percebeu que continuar seu trabalho seria um desafio. “Não temos os mesmos recursos. O ambiente é muito diferente”, diz.

A falta de investimentos limita a pesquisa em biotecnologia e a transferência de conhecimento da academia para a indústria, deixando o País às margens do avanço global na área. “Decidi estudar maneiras para fomentar projetos”, diz Pereira.

Nesta jornada, seu caminho cruzou com o de Geciane, que se dedica há anos ao estudo das redes e do ambiente de inovação no Brasil. O resultado foi um projeto de pós-doutorado, orientado pela docente e tocado por Pereira. “O embrião do artigo aceito pela Nature”, lembra Geciane.

Para testar a metodologia em uma espécie de circuito fechado, Pereira e Geciane recorreram à colaboração. Na mesma época, Virgínia e Covas, pesquisadores do Hemocentro de Ribeirão Preto, estavam às voltas com a identificação de tendências tecnológicas para o tratamento da hemofilia – distúrbio na coagulação do sangue. Estudavam os avanços nas terapias para a reposição do fator recombinante VIII, que não é produzido por portadores de hemofilia tipo A. “Eu já tinha verba aprovada para estudar terapias para a doença, mas faltava levantar o cenário de desenvolvimento”, comenta Virgínia.

Virgínia e Covas, do Hemocentro de Ribeirão Preto, aplicaram a metologia para filtrar as tecnologias mais relevantes no tratamento de hemofilia tipo A. (Foto de divulgação).

A conexão com as informações de mercado aconteceu com a aplicação da metodologia de redes, proposta por Geciane e Pereira. O grupo estudou as patentes sobre terapias para o fator VIII e encontrou as tendências globais na área. “O método nos dá um norte”, diz Virgínia. No caso da pesquisa do Hemocentro, eles identificaram que a busca está centrada em aumentar o tempo de efeito dos medicamentos no organismo, reduzindo a frequência das doses. “Ficou mais fácil escolher no que vamos apostar”, explica a pesquisadora.

Outra vantagem importante do mapeamento está em descartar rotas tecnológicas ultrapassadas, poupando tempo de pesquisa e recursos. “Os pesquisadores brasileiros não têm o hábito de investigar bancos de patentes. Muitas vezes descobrem que o trabalho não é inovador justamente na hora de patentear”, diz Pereira.

Para Geciane, o mapeamento das rotas tecnológicas e redes de cooperação pode ajudar a redesenhar as políticas e estratégias de inovação. Nas empresas, os gestores serão capazes de filtrar os projetos mais inovadores e viáveis. Na esfera pública, garante que os recursos sejam aplicados no desenvolvimento de tecnologias capazes de atender, de fato, demandas brasileiras como a produção de medicamentos biotecnológicos e soluções ambientais. “O Brasil é dependente de medicamentos biotecnológicos porque não os produzimos por aqui”, destaca Geciane. O resultado é um desequilíbrio na balança comercial e, principalmente, nas contas do Sistema Único de Saúde (SUS), que precisa importar grande parte dos remédios de alto custo.

Crédito da foto de abertura: Sharon Pittaway (Unsplash)


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One thought on “Pesquisadores brasileiros publicam na Nature”

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