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O blockchain promete transformar nosso dia a dia e a forma como negociamos e utilizamos o dinheiro.

Já se passaram 15 anos. Você migrou da indústria fonográfica e construiu uma bem-sucedida carreira no setor financeiro. Mas uma lembrança ainda assombra seus pensamentos. Na manhã de 3 de junho de 2017, o jornal informa que o Banco Central da Rússia testa uma moeda digital. Seis meses antes, o Federal Reserve (EUA) anunciou o desenvolvimento de sua versão do Bitcoin. Inglaterra, Suécia e Índia fizeram o mesmo. Até pequenas nações da África, como o Senegal e a Tunísia, aderiram ao movimento. Não é a criptomoeda que faz sua espinha gelar, mas a tecnologia por trás dela: o blockchain. Sim, você está, novamente, lidando com transformações promovidas por uma rede ponto a ponto..

No início deste século, você estava lá, no topo de uma grande gravadora, feliz fazendo o seu trabalho. Foi quando assistiu ao modelo de negócios ruir. Os consumidores – usando sistemas como o Napster – começaram a trocar músicas pela internet, sem pagar um centavo para as gravadoras. Em passos simples, a música saía de um ponto (computador) para outro, criando o que a indústria fonográfica classificou como uma modalidade de “pirataria”. Diante da despencada dos lucros, selos e artistas começaram a atacar, tratando os consumidores como criminosos.

Enquanto os estúdios ladravam, Steve Jobs lançou o iPod (2001) e permitiu que os consumidores carregassem as músicas em seus bolsos. Trocar faixas tornou-se ainda mais simples. Com o sucesso do aparelho, a Apple não perdeu tempo e ocupou o espaço comercial com o iTunes. Jobs redesenhou as vendas de música em todo o mundo. Seu modelo de negócios destruiu o sistema de distribuição tradicional, estabeleceu preços, determinou novas margens de lucro. Uma sombra pairou sobre a indústria da música.

Anos mais tarde, o blockchain promete um avanço similar no setor financeiro. Nenhum especialista sabe ainda como isso vai acontecer, nem em que ritmo. Mas o banco como o conhecemos hoje não existirá mais. O setor financeiro precisa se reinventar, encontrar seu papel em um mundo que pode não precisar mais dele. “É uma transformação sem precedentes”, diz Robert Schwentker, presidente e co-fundador da Blockchain University.

 

A tecnologia do blockchain permite, por exemplo, que um pai no Brasil envie dinheiro, em segundos, para seu filho em um país distante como o Japão ou os Estados Unidos. Para fazer isso, ele pega o smartphone e executa a transferência – sem bancos, sem intermediários, sem taxas. É como tirar R$ 100 da carteira e entregar ao seu filho para ir à mercearia.

 

Além do dinheiro, o cliente terá à sua disposição sistemas para facilitar a venda e compras de ativos, sem depender de intermediários bancários para validar a transação. Como acontece com a indústria da música, tudo acontecerá através de uma rede ponto a ponto. Sem tempo a perder, é preciso compreender e dominar a fera. Não é à toa que bancos em todo o mundo correm para descobrir como usar o blockchain. Buscam vantagens e estratégias para oferecer serviços melhores e mais baratos. De acordo com o Fórum Econômico Mundial, nos últimos três anos, os fundos de capital de risco destinaram mais de US $ 1,4 bilhão a plataformas de contabilidade distribuída. As discussões sobre o uso da cadeia de blocos já envolvem mais de 90 bancos centrais em todo o mundo e 80% das instituições financeiras planejam iniciar projetos com a tecnologia até o final de 2017. É uma corrida global.

 

Um sintoma dessa competição está no fato de as equipes empresariais chegarem cedo às discussões sobre a tecnologia. Nitin Gaur, diretor do laboratório de blockchain da IBM, ficou intrigado quando enfrentou um auditório cheio de executivos durante sua apresentação em uma conferência de tecnologia bancária no Brasil, no ano passado. No lugar da habitual plateia de engenheiros, homens de terno e mulheres em cima de saltos altos disputavam o melhor ângulo para entender cada slide. “As instituições financeiras terão de mudar a forma como elas funcionam. É preciso entender a tecnologia para tomar decisões em seus modelos de negócios “, desvenda Gaur. Típico garoto do laboratório, Gaur é de origem indiana, corpo magro, pele e cabelos escuros. Os fios brancos denunciam que ele é testemunha de diversas transformações tecnológicas nas últimas décadas. Só na IBM, Gaur acumula 16 anos. Ele foi o primeiro executivo com quem entrei em contato para entender o que é blockchain, como funciona, o frenesi em torno de sua tecnologia e suas promessas de transformações.

Em 20 anos cobrindo tecnologia e inovação, nunca notei medo nos olhos dos banqueiros. Eles estão acostumados a adotar a tecnologia como estratégia, uma maneira de reduzir custos e ampliar os lucros. Mas com o blockchain, a indústria financeira não sabe para onde ir. É preciso embarcar em uma jornada incerta. “Não se trata de saber se isso vai acontecer ou não, mas quando”, diz Gaur.

Antes de falar sobre o blockchain, Gaur voltou no tempo e explicou como as coisas funcionam hoje nas cadeias de negócios, destacando nossa dependência do sistema financeiro. Uma compra na Amazon.com, por exemplo, inicia um processo de verificação de identidade e crédito. Bits e Bytes trafegam pelas conexões de internet, entram em fortalezas digitais onde os sistemas de instituições comerciais e financeiras confirmam a transferência de propriedade. Os servidores armazenam provas de transações e informações sobre compras. Toda essa estrutura é o que permite que você compre algo com seu dinheiro. Essas fortalezas – ou centros de dados – são necessárias porque, no mundo digital, tudo pode ser copiado, replicado. E isso não pode acontecer com dinheiro e ativos.

Quando enviamos por e-mail um arquivo do PowerPoint, um documento do Word ou uma imagem, estamos enviando uma cópia, o que significa que mantemos o original em nossos dispositivos. É como ir a uma mercearia, pagar a conta e ainda manter o dinheiro em sua carteira, produzindo uma cópia da nota. Não é uma boa ideia.

Com essa limitação técnica, a Internet não é, até hoje, uma estrutura pronta para transacionar valores. É extremamente eficiente na troca de informações. Mas faz com que o comércio eletrônico dependa do mundo físico – com dinheiro e uma trilha de papel – para operar. A dependência do mundo físico – e da centralização das informações – se estende para qualquer transação comercial ou financeira passível de automação.  Toda vez que um cartão de crédito ou débito é utilizado em um ponto de venda, desencadeia as engrenagens dos centros de dados. Para obter acesso ao seu dinheiro no banco, a instituição financeira executa uma parte da solução, quer transferindo o valor ou anotando uma dívida em seu cartão de crédito. A operação resulta em um pedágio, que pagamos pela segurança e conveniência.

Em seu livro “Blockchain Revolution: como a tecnologia por trás do bitcoin está mudando dinheiro, negócios e mundo”, Don Tapscott e Alex Tapscott explicam que, na cadeia de blocos, ativos digitais (sejam dinheiro, música ou qualquer outro) não são armazenados em um lugar central. Eles são distribuídos em uma espécie de livro-razão global, protegido por um alto nível de criptografia. Quando uma transação é conduzida, ela é registrada em milhões de computadores. Nessa rede, um grupo de pessoas, chamado mineiros, trabalha para validar, verificar e garantir qualquer comércio. “Eles têm enorme poder de computação ao alcance de suas mãos, de 10 a 100 vezes maior do que todo o Google”, disse Don Tapscott em um discurso TED Talk.

Cada transação cria uma informação, ou um bloco, que será conectado a uma rede ou a uma cadeia. Para confirmar o comércio, é necessário colocar todas as peças juntas como um quebra-cabeças Lego. Assim que os mineiros desvendarem o bloco, toda a rede é atualizada e não é possível reverter a transação. Por exemplo, se você transferir R$100,00 em uma moeda digital para alguém, você não manterá o dinheiro, que será colocado na carteira do destinatário. Para publicar uma falsificação da transação, um hacker deve invadir todos os blocos de informações da cadeia. Em vez de atacar um único servidor, é necessário quebrar centenas de computadores. “O blockchain permite uma troca mais segura de valores e produtos”, lembra Gaur, com orgulho. Ele acrescenta que dados pessoais ou corporativos podem ser incorporados na cadeia de blocos, fornecendo segurança e privacidade.

Outra vantagem é que o blockchain pode economizar muito dinheiro. Um relatório internacional, publicado pelo Santander Bank (O artigo Fintech 2.0: reiniciar os serviços financeiros), estima que o uso de tecnologias de contabilidade distribuída pode resultar em economias entre US$ 15 bilhões e US$ 20 bilhões por ano até 2022. Os banqueiros estão entusiasmados com essa oportunidade. Mas se blockchain é mais seguro e mais barato, por que os bancos têm medo dele? “Não se trata de tecnologia. É uma questão de confiança”, diz Gaur.

 

Fonte: Sacks

O modelo centralizado é o resultado de uma crise de confiança antiga. Confiamos em uma instituição para gerir o nosso dinheiro. São os bancos os responsáveis por nos dar crédito, guardar e aplicar nossas economias. Há evidências históricas de que os fenícios iniciaram o que chamamos de banco. Mas foi na Idade Média que uma instituição que podemos reconhecer como um banco apareceu. E com o seu crescimento, o conceito de validação de transações, certificação de propriedade de ativos e verificação de identidade das pessoas se espalhou para outras instituições.  Precisamos delas para manter nosso dinheiro, afirmar nossa capacidade de pagamento, registrar a propriedade de nossos ativos e confirmar nossas intenções nos contratos. Não confiamos uns nos outros sem reservas. Nós delegamos essa função a bancos, cartórios, operadores de cartões de crédito e outros entes do mercado.

Essas instituições aprovam e verificam qualquer transação, desde o pagamento de um café na Starbucks até a venda de imóveis ou ações. A centralização trouxe controle e tornou propícia a terceirização da confiança. Como consumidores, pagamos bilhões de dólares por ano para suportar uma pesada infraestrutura de computadores e sistemas de segurança digital. Nós nos protegemos do medo e uns dos outros. Mas o blockchain promete mudar tudo.

A tecnologia surgiu em 2009, incorporada no Bitcoin. Naquele ano, o mundo estava enfrentando uma grave crise financeira. As transações com a moeda digital cresceram rapidamente. Logo, o mercado financeiro e os governos tentaram marginalizar o Bitcoin, relegando, sem sucesso, o seu uso ao submundo criminoso. Mas o Bitcoin perseverou e outras moedas digitais surgiram no horizonte. Os bancos e governos perceberam, então, que havia algo relevante embarcado no Bitcoin: um poderoso algoritmo de criptografia.

Começaram a investigar as características técnicas da aplicação para proteger suas próprias transações na internet. Foi então que, como mineiros diante de um vasto terreno, os especialistas em segurança do setor financeiro toparam com a pepita de ouro do Bitcoin: um sistema de contabilidade distribuída capaz de reduzir os custos das transações financeiras, melhorar a segurança e permitir a criação de uma rede global de negócios (confiável, automatizada e pronta para certificar a propriedade de qualquer bem).

Robert Schwentker, da Blockchain University: o blockchain é uma transformação sem precedentes. (Crédito: divulgação)

 

Neste momento, os banqueiros perceberam que compreender e dominar a fera é a única maneira de sobreviver. “A tecnologia elimina intermediários. Isso muda tudo. Nós não precisaremos mais de bancos ou dinheiro”, acrescenta Schwentker.

A necessidade surfar a onda do blockchain promoveu investimentos em soluções em todo o mundo. Schwentker cita iniciativas nos Estados Unidos, Europa, Ásia e América Latina. Mesmo na África, o blockchain está sendo usado. O Senegal e a Tunísia, por exemplo, lançaram suas moedas digitais. O dinheiro investido financia startups e promove a adoção do blockchain em diferentes áreas, beneficiando assim a sociedade. Além do mercado financeiro, Schwentker vê múltiplos usos da contabilidade distribuída. “É uma chance de transformar nossa sociedade, construir um mundo melhor e mais confiável”, diz. Entre as possibilidades, ele destaca o uso do blockchain para proteger a propriedade intelectual, reduzir a burocracia e proteger as pessoas.

Típico visionário da baía de San Francisco (no Vale do Silício), Schwentker acredita na tecnologia como forma de ajudar as pessoas. Entre os exemplos ele cita a possibilidade de utilizar o blockchain para ajudar as mulheres refugiadas, assegurando a identidade delas. Pelo sistema, é possível registrar os dados de identificação em um “livro” distribuído pela rede, substituindo cartões de identidade e passaportes.  Ao que tudo indica, uma moeda digital marginalizada começou uma revolução.

 


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